sábado, 14 de janeiro de 2012

A Ilha do Sol


2 a 4 de Setembro

Os autocarros para Copacabana partem de La Paz. Contudo, esta van que apanhámos em Sorata deixaría-nos em Huarina, uma cidade que fica a meio caminho e onde também é possível apanhar o autocarro para Copacabana. Escusávamos deste modo, de retornar a La Paz propositadamente. Huarina resumia-se a uma estrada com algumas casas com tijolo a descoberto. Quando lá chegámos já eram quase 19h00, era de noite, e a estrada estava deserta. Depois de andarmos um pouco encontrámos uma mercearia que estava aberta, e perguntámos ao senhor se ainda passavam autocarros para Copacabana. Disse-nos que já tinha passado o último e que o próximo era no dia seguinte, por volta das 7 da manhã. Perguntámos se sabia de algum lugar em que pudessemos ficar a dormir, ele disse que tinha um quarto disponível na casa dele, e que poderíamos passar lá a noite por 20 bolivianos (cerca de 2 euros). Visto o único estabelecimento aberto das redondezas ser aquela mercearia, comprámos-lhe uns bolos e um sumo, para termos algo que jantar! A casa do senhor era também daquelas de tijolo a descoberto, o quarto era o segundo andar, a porta dava directamente para a rua e não fechava, havia uns colchões no chão nos quais estendemos os nossos sacos cama e nos deitámos a ver um filme.




No dia seguinte acordámos às 6. A casa-de-banho era ao pé do galinheiro, e a sanita era um buraco no chão. Arrumámos as coisas e metemo-nos na estrada à espera do autocarro, que acabou por chegar passados uns 40 minutos. Aqui tomámos contacto com (mais) uma realidade nova, a venda nos autocarros. Mais tarde perceberíamos que esta é uma constante nos países americo-latinos. Vende-se de tudo, bebidas, comida, vitaminas, medicamentos, acessórios de telemóveis, calendários, maquilhagem, etc. Ao principio pensámos que o motorista recebesse alguma comissão, mas parece que não, é um hábito cultural. A meio do caminho tivémos de sair do autocarro e apanhar um barco para atravessar um bocado do lago Titicaca, enquanto que o autocarro o atravessou em cima de uma plataforma de madeira, movida por um motor.
Ao chegarmos a Copacabana, estava um senhor à beira do autocarro que nos perguntou se tínhamos hostel reservado, dissemos que não, perguntámos o preço e fomos com ele. O quarto não era muito bonito, mas a dormida era baratíssima (3 euros por noite o quarto). Esta foi uma política que assumimos desdo início da viagem, procurar sempre tudo mais barato, desde a dormida, restaurante, transporte, supermercado até à lavagem de roupa , o que por vezes é chato e exige tempo e paciência, mas que nos permite poupar dinheiro para as actividades que vamos fazendo.
Depois de nos alojarmos, decidimos que passaríamos esse dia em Copacabana, e que no dia seguinte iríamos então visitar a ilha do Sol, uma das mais conhecidas no lago Titicaca. Este lago é um dos maiores da América do Sul, não só em tamanho, mas também em beleza. Procurámos em várias agências os preços e condições das tours, e acabámos por encontrar uma que nos cobrou 28 euros pela tour à ilha do Sol, transporte de Copacabana para Puno (já no Perú), uma tour às ilhas flutuantes que lá se encontram, transporte de Puno para Arequipa e ainda uma lavagem de roupa! Fantástico! Ainda por cima este preço pelos dois! Ocupámos o resto do dia a passear. A cidade é pequena, muito turística, com imensas bancas na rua de recordações, uma igreja enorme, e um porto todo catita, cheio de barcos de madeira coloridos. Pelo fim da tarde, lanchámos num café muito bonito, todo feito de madeira. Nele, o Vitor falou com os pais no skype e carregou no facebook mais algumas fotografias da nossa aventura. Acábamos por jantar lá mesmo, e provar uma das melhores refeições da viagem: porco agridoce! Talvez também tenha sido tão boa porque enquanto estavamos a comer, passou a Estrela da Tarde como música de fundo no restaurante. Ficámos completamente abismados. Quando tentámos regressar ao hostel já eram quase onze, e o edifício estava completamente fechado, sem sequer uma campainha onde pudessemos tocar. Depois de muito tempo a bater à porta lá conseguimos que nos deixassem entrar e descansar um pouco.




O dia seguinte começou cedo, por volta das 7h. Deixámos as nossas malas na agência que nos vendeu a tour e seguimos para o porto, onde tomámos o pequeno-almoço que já tinhamos comprado na véspera: sumo de pêssego e pão com queijo. Depois de mais de duas horas no barco, atracámos na parte norte da ilha do Sol, e fizemos a primeira parte da visita com um guia que nos mostrou um pequeno museu. Levou-nos ainda até a uma pedra sagrada e umas ruínas da civilização pré-inca que tinha habitado a ilha. É curioso apontar que ainda hoje os descendentes dessas civilizações fazem festas sagradas na ilha e sacrifícios de animais. Por volta das 13h, o guia levou algumas pessoas de barco para a parte sul da ilha , e deixou os mais aventureiros a fazer um passeio a pé, que durava três horas e nos levaria igualmente à parte sul da ilha. Demos as nossas últimas moedas ao guia que implorou por uma gorjeta (como iamos para o Perú nessa tarde, não nos convinha que sobrassem bolivianos) e seguimos. Foi um passeio muito bonito, onde novamente pudemos disfrutar do contacto com a natureza e da ausência de poluição. Apesar do Sol forte e da falta de protector, ficámos deslumbrados com o azul da água e as paisagens que nos rodeavam. O Vitor não se cansou de tirar fotografias. No entanto, aguardáva-nos uma pequena surpresa, que pôs à prova os nossos skills portugueses de saber desenrascar. A ilha era povoada por várias comunidades indigenas, que cobravam uma pequena quantia aos caminhantes com o intuito de preservar a ilha. Nós não tinhamos um único centavo, e voltar para trás era completamente inviável, porque o barco já tinha partido. Lá fomos explicando a nossa situação, e implorando que nos deixassem passar. Todos nos foram deixando seguir viagem, com mais ou menos resistência, e sempre advertindo que na próxima comunidade não nos deixariam seguir. A verdade foi que conseguimos atravessar toda a ilha e estar a horas no barco para o regresso! Depois de um lanchinho e uma ida à farmácia para comprar um medicamento para o Vitor que estava com uma gengivite, despedimo-nos da Bolívia e apanhámos o autocarro para o Perú.

Dos 2800 aos 4300


31 de Agosto a 2 de Setembro

Chegados ao terminal de La Paz, enquanto um senhor nos acabava de dizer que só havia transporte para Sorata dali a umas horas, passa uma van que ia precisamente para Sorata. Passámos as nossas malas ao condutor que estava no cimo da van. Ele encaixou-as lá de uma maneira xpto, sem corda, sem nada. Perguntámos-lhe se as malas estavam seguras desta forma, ao que ele respondeu positivamente, com confiança! Obviamente não ficámos descansados, e fomos durante as três horas de viagem , por turnos, olhando para a parte de trás da van, para confirmar que nenhuma das malas caía e ficava pelo caminho. Viajar na Bolívia é muito bonito, a maior parte da área do país está acima dos 3000 metros de altura,sendo assim possível disfrutar de paisagens extraordinárias. Ainda na viagem La Paz - Sorata, mais adiante, deixámos de andar sobre uma estrada de alcatrão, e começou a estrada de terra batida, que se foi estreitando cada vez mais. A estrada mudou, mas o estilo de condução nem por isso! Através do vidro conseguíamos ver o precipicio que se formava à beira da estrada, o que para o condutor não parecia fazer qualquer diferença, uma vez que a sua condução continuava louca, chegou mesmo a ter de fazer marcha atrás por uma das rodas sair para fora da estrada...deixámos de nos preocupar tanto com as malas, e começámos a temer pelas nossas vidas! No entanto, tudo correu bem, chegámos inteiros, assim como as nossas malas, embora com um pouco de poeira. Mais tarde descobriríamos que a estrada de que falava é uma das mais perigosas do mundo.



A vila de Sorata resume-se a uma praça e algumas ruelas à volta, rodeadas de enormes cadeias montanhosas, que segundo nos informámos, são bastante boas para fazer caminhadas. Fomos à única agência de turismo da vila para saber quanto custava um guia. Aqui começou o desenvolvimento das nossas capacidades de negociação, quando ao ouvirmos o preço, perguntámos ao senhor se nos podia dispensar um mapa das montanhas, e que caminharíamos sozinhos. Ele prontamente disse que seria perigoso, que nos perderíamos e acabou por baixar o preço quase para metade. Seria uma caminhada de dois dias (ida e volta), uma subida dos 2800 aos 4300 metros, onde dormiríamos em tendas.



No dia seguinte acordámos cedo, pegámos na mochila que continha o essencial, encontrámo-nos com o guia, e abalámos. A nós juntou-se uma mula que levaria os alimentos necessários, e um cão sem dono que também decidiu vir passear. Estava portanto formada, a irmandade do anel! Logo ao principio, quando estava a tirar uma foto que apanhava uma senhora campesina, esta fez-me rigidamente um sinal para que não a fotografasse. O guia era também um campesino duma vila ali perto da Sorata, e à medida que íamos andando e disfrutando da maravilhosa paisagem, ele ía-nos falando das vilas ali à volta, e do modo de vida dos agricultores da Bolívia. Pensar que há um dia estávamos numa cidade com um movimento infernal torna-se até uma ideia estranha, se existe na Bolívia oposto a La Paz, esse oposto será Sorata, contacto puro com a natureza,  um ar que nos delicia e que dá vontade de respirar, nos momentos de não diálogo, o único som que se ouve é o dos nossos passos, e o de uma brisa a bater nas árvores,uma sensação enorme de paz. A meio da caminhada já tínhamos passado por inúmeras biforcações, apercebemo-nos que de facto, fizémos bem em vir com um guia, pois seria muito fácil perdermo-nos pelas montanhas, dada a nossa inexperiência. O factor altura tem bastante influência na respiração, pelo que às 18h00, quando chegámos por fim ao lugar onde passaríamos a noite, estávamos de rastos. Era um pequeno descampado, com algumas casas a cerca de 400 metros, nas quais uns meninos nos tinham pedido doces enquanto passávamos, parece que é hábito os caminhantes levarem-lhes doces, mas essa parte escapou-nos. Montámos as tendas, uma para nós outra para o guia, ajudámo-lo a fazer o jantar e ficámos à conversa até que o frio falasse mais alto. Devido à ausência de poluição luminosa, era possível disfrutar de um céu estrelado como nunca antes tinha visto! A noite ali ganha outra dimensão, estamos a 4300 metros, no meio de nenhures, onde se pode ouvir uivos distantes, sem iluminação, com uma pessoa que conhecemos no próprio dia e que pode fazer de nós o que quiser. A cabeça começa a andar a mil à hora e apercebemo-nos do quanto vulneráveis estamos num lugar daqueles, à noite. Pensamentos que me ocurreram, mas que achei por bem não partilhar na altura com a Carolina. Durante a noite, acordo com a Carolina a agarrar-se a mim, em pânico! Ouviam-se uns passos lá fora, o coração começou a palpitar. Seria o guia? Seria alguém? Seria um animal? Francamente, não dava para perceber, o medo falava mais alto. Tentei manter a calma e não lhe transmitir que estava igualmente em pânico como ela, e enquanto a minha pulsação estava a mil, susurrei-lhe baixinho que estava tudo bem, que não se passava nada. Contudo os passos não paravam, e depois de ter demorado alguns minutos a ganhar coragem, abri a tenda para ver o que se passava. Era a mula, que não parava de um lado para o outro. Dá vontade de rir, mas acreditem que foi um grande susto do qual não nos esqueceremos tão cedo! A manhã seguinte começou com um acordar também inesquecível. De um lado tínhamos o sol a nascer entre duas montanhas, e do outro as nuvens, que estavam ao nosso nível, indiscritível! Lavámos os dentes e tomámos um pequeno-almoço típico boliviano, preparado pelo guia, uma papa de aveia quentinha com passas e maçã cozida, ao sabor de toda a bela paisagem que nos rodeava.
 Iniciámos a volta a Sorata, onde chegaríamos por volta das 13h00. Tinhamos nos nossos planos deixar a vila nesse dia. Exaustos, ficámos ainda indecisos e ponderámos ficar em Sorata mais um dia para descansar, mas lá ganhámos coragem e às 16h00 metemo-nos na van rumo a Copacabana, cidade banhada pelo famoso Lago Titicaca!










Um lugar diferente


28 a 30 de Agosto

Neste momento da viagem, eu o Vitor já tinhamos percebido que estavamos a gostar cada vez mais de visitar pequenas cidades, lugares naturais, e a evitar as grandes cidades. Por isso, a nossa ida a La Paz foi um pouco acidental, motivada pelo facto de em Arica só se poder viajar para esta cidade na Bolívia. Uma vez que os nossos planos eram seguir para o Perú, optámos por não visitar o sul da Bolívia como tínhamos pensado, nomeadamente o salar de Uyuni e Potosi (onde é possível conhecer a realidade do povo mineiro), pois isso implicaria voltar para trás em relação ao Perú. Fomos para a Bolívia completamente à descoberta, sem qualquer expectativa.
Depois de 24h em autocarros e já sem posição para estar, deparamo-nos com a primeira visão desta capital.  A cidade fica protegida pelas montanhas que se encontram ao seu redor, a 3400 metros de altitude, repleta de casas de tijolo a descoberto, que se estendem por quilómetros e quilómetros sem fim. Foi interessante explorar esta paisagem, uma vez que primeiro pudemos observar toda a cidade de La Paz do alto das montanhas, e depois fomos descendo gradualmente até ao terminal de autocarros, desbravando esta selva urbana, tão inacreditável e pouco familiar. Chegados ao terminal, deparámo-nos com um ambiente de loucos, inúmeras pessoas, cada uma na sua bilheteira a gritar repeditamente o nome do destino para o qual vendia bilhetes, surreal! Rapidamente percebemos que o acaso que nos levou a La Paz tinha valido a pena, por nos permitir contactar com uma realidade muito diferente da nossa.


Uma vez encontrado o hostel, descobrimos que ir ao supermercado e cozinhar era muito mais caro que ir a um restaurante. Começaram aqui as minhas férias da cozinha, que se prolongariam mais do que poderia imaginar. Tal como as refeições, começámos a descobrir que tudo na Bolívia era muito mais barato que na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, aqui aproveitámos para comprar algumas lembranças!


O dia seguinte foi ocupado a passear pela cidade. La Paz é uma cidade em constante burburinho, repleta de vans a abarrotar de pessoas, mercadores de rua a quem se pode comprar tudo o que se pode imaginar e onde a respiração é dificultada pela altitude e os elevados níveis de poluição. As pessoas têm uma fisionomia muito diferente da nossa, claramente marcada por veia mais indigena (pele mais escura, olhos rasgados, cabelos escuros, homens sem barba, e uma estatura baixa com uma caixa toráxica ampla, adaptada à altitude). Outra coisa que caracteriza muito os Bolivianos são os seus trajes típicos, principalmente nas mulheres, que vestem saias compridas, coloridas e rodadas, e andam sempre com um chapéu preto no topo da cabeça. Ter um carro próprio na Bolívia é um luxo a que poucos se podem dar, por isso as ruas são preenchidas por uma confusão de transportes públicos, onde os assistentes dos motoristas gritam os destinos pela janela e que param em qualquer lado porque não há paragens, o que joga a favor dos passageiros que podem sair onde quiserem, basta dizerem "parada!". Percebemos também que o povo Boliviano era mais fechado que aqueles com que tinhamos contactado até então, e que as casas inacabadas com tijolo a descoberto, que dominam a cidade, pagam muito menos impostos que uma casa pintada. Sentimos que conhecer La Paz acabou por marcar um pouco a saída do mundo europeu a que tanto estávamos habituados, e do qual havia vestígios em todos os lugares que tinhamos visitado até então.


O último dia em La Paz foi dedicado às ruínas de Tiwanaku, uma civilização pré-inca que ainda estão a ser escavadas e que em muito contribuiu para o alto nível de conhecimento inca. Sabe-se desta civilização que foram época homens e mulheres altos, pelo tamanho dos degraus das suas escadas. Tiveram contacto com populações de outros continentes (mesmo antes da colonização espanhola), facto testemunhado por várias esculturas e retratos da época que retratavam pessoas de diferentes fisionomias. Dominaram ciências como a astronomia, a física (sobretudo na área de propagação do som) e minerologia, e construiram complexos sistemas de escoamento de água. Aliaram significados espirituais às suas construções, principalmente às suas estátuas sagradas e templos, repletos de simbolos e gravuras. Foi com alguma tristeza que constatámos que, se estas ruínas se encontrassem na Europa ou nos EUA, já estariam completamente escavadas, estudadas e transformadas numa enorme atracção turística. Durante esta excursão, descobrímos que a Bolívia, apesar de ter o triplo da área de Portugal, tem apenas 10 milhões de habitantes, que a par do espanhol também se fala Aimará, uma língua de origem indigena, e que a maior parte das pessoas vivem da agricultura ou do trabalho mineiro.
No último dia apanhámos uma van que nos levaria a Sorata, uma pequena aldeia conhecida pelas caminhadas que lá é possível fazer. Mal estávamos preparados para a aventura que nos esperava, e que segue no próximo post.
Beijinhos!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

As rosas de Atacama


25 a 28 de Agosto
Quando de manhã acordámos no autocarro, o ecrã da temperatura marcava 6 graus abaixo de zero, os ouvidos estavam entupidos e tinhamos à nossa volta uma paisagem inesquecível, montanhas, lagos e neve: os Andes.
Se houve coisa que aprendemos durante esta viagem, foi que passar fronteiras por via terrestre tem a sua ciência, ainda mais aqui que não há União Europeia. Desta vez o problema foi a manga e a cebola que trazíamos na mala. Acabámos por ter que deixá-las no controlo de bagagem, uma vez que o Chile não permite a entrada de frutos e vegetais para proteger a agricultura do país.
Chegámos a São Pedro de Atacama 14h depois  de termos entrado no autocarro, e mal estávamos preparados para os três dias fabulosos que iríamos viver nesta pequena vila no norte do Chile, que se sustenta essencialmente através do turismo e da extracção de lítio do deserto.
Nessa mesma tarde pusemos de lado o cansaço da viagem e fomos visitar o deserto de Atacama, que é todo feito de sal, e os vales da lua e da morte. A elevada concentração de arsénio no sal impede que este seja utilizado enquanto recurso, uma vez que o processo de purificação é bastante caro. Neste deserto, encontrámos paisagens deslumbrantes, tiram até a respiração. Já no fim da visita pudemos desfrutar de um por do sol lindíssimo ao sabor de uma bebida típica dos Andes, o pisco sagué. Para terminar, descemos a pé uma duna com 400 metros. Durante esta descida, a nossa máquina fotográfica teve direito a um banho de areia que se revelaria fatal...
Já desde o Brasil que a frase "vai custar muito quando regressarmos Portugal, voltar para a rotina, aulas, mestrado..." tinha sido evocada algumas vezes, por ambos. Conhecer pessoas que estavam a viajar há um ano ou mais, tinha-se tornado rotina. As experiências que íamos trocando com viajantes foram-nos criando um bichinho, era uma vida de descoberta, de não rotina, de sentir que todos os dias valiam a pena, demasiado aliciante, tentadora!  A Carolina já tinha pensado na possibilidade de não voltarmos a Portugal, mas achou que seria demasiado extremo, pelo que, nesse dia propôs que adiássemos a data do nosso vôo: em vez de voltarmos dia 20 de Setembro, voltaríamos algures do meio de Outubro. A ideia soou-me bem, mas ficou meio no ar.
O dia seguinte começou muito cedo, por volta das 3h30 da manhã, quando acordámos para ir visitar os geysers e fumarolas no interior de um vulcão extinto, enquanto assistiamos ao nascer do sol. Estavam menos 18º e toda a roupa que levámos pareceu pouca, no entanto foi uma experiência fantástica. Estas formações geológicas permitiram também que aí se criassem umas termas naturais, e a tremer de frio lá tirámos a roupa e entrámos na água quentinha. Sair é que foi pior!
Depois do almoço, visitámos a laguna Cejar, que à semelhança do Mar Morto, tem uma concentração de sal elevadíssima que nos permite flutuar naturalmente. Depois de sairmos tivémos até de tomar um banho de água doce, porque tinhamos imenso sal agarrado à pele. Mais uma vez, assistimos a um por-do-sol que jamais vamos esquecer, uma vez que à medida que o sol se foi pondo toda a cordilheira dos andes foi mudando de cor, desde um vermelho-alaranjado até um castanho-escuro.
Chegámos a casa muito cansados, cozinhar e tomar banho pareceram autênticas odisseias. Adormecemos assim que caímos na cama, por volta das 19h, e acordámos para mais um dia em cheio. Este começou com uma visita a uma reserva natural onde podiam ser observadas três espécies de flamingos. Foi a um destes bichinhos que a nossa máquina tirou a sua última fotografia. O dia seguiu com uma caminhada pela laguna Miscanti, a mais de 4000 metros de altura. Estava rodeada de neve, e a própria água estava em gelo, o que adicionou uma magia especial à paisagem. Pela tarde, visitámos uma aldeia andina, na qual almoçámos, e descobrímos que ali mesmo no deserto, está a ser desenvolvido um recente projecto científico, chamado "ALMA". Resulta da colaboração dos EUA, Ásia, Europa e Chile, e tem como objectivo construir o mais moderno observatório espacial do mundo.


 Chegámos ao hostel por volta das 18h, e tratámos de arrumar toda a bagagem, fazer o jantar e seguir para o terminal de autocarros. Viajámos para Antofagasta, com a intenção de seguir para o Sul da Bolívia. Mas os nossos planos saíram trocados, em Antofagasta só era possível viajar para o sul da Bolívia no dia seguinte, e para evitar passar uma noite ali, optámos por apanhar um autocarro para Arica (mais a noite do Chile) que partia dentro de 10 minutos, donde também havia autocarros para a Bolívia, e desta forma, passar a noite no autocarro. Este foi certamente um dos despertares mais inesquecíveis da viajem. Abro os olhos, vejo uma série de pessoas à minha volta, algumas acordadas, outras ainda a dormir. Depois de demorar alguns segundos até me lembrar onde estava, olho através do vidro e vejo um sol forte, ainda a metade, debaixo dele estão umas formações brancas parecidas com algodão, sem interrupções, que servem de ponte entre as altas montanhas. Não parecia real, estávamos mesmo dentro de um autocarro que viajava ao nível das nuvens! Obviamente quis partilhar este momento com a Carolina e  acordei-a para que saboreasse também esta maravilhosa paisagem. Ela respondeu com um "Ah, que bonito!".


Norte da Argentina


23 e 24 de Agosto


Esta foi a primeira grande alteração no nosso roteiro, depois de Iguaçu estava previsto seguirmos para o Paraguai, e daí para a Bolívia. No entanto, até aqui todas as pessoas nos disseram que o Paraguai não valia a pena, e por outro lado, que o norte da Argentina era muito bonito, assim como o do Chile, pelo que decidimos alterar os nossos planos.
Aterrámos em Salta pela manhã. Mais uma vez se verificou a simpatia do povo argentino, quando ao apanharmos o autocarro para a cidade, o condutor não nos cobrou nada devido ao facto de apenas se poder pagar com moedas, e nós só termos notas. Além disso, fez questão de nos deixar no local mais favorável para chegarmos até ao hostel. Aproveitámos a tarde para explorar a cidade de Salta. Visitámos os jardins, o mercado (onde comprámos os nossos casacos típicos) e andámos no teleférico. Comprámos ainda uma tour para o dia seguinte, na qual visitaríamos três pequenas provincias argentinas.
Acordámos por volta das 6 da manhã, pegámos nas malas e entrámos na van que nos levou a visitar lugares históricos muito importantes na conquista da independência da Argentina, com uma cultura muito própria, e de uma beleza natural esplêndida! As fotos falam por si.



A parada seguinte era San Pedro de Atacama, no Chile, e assim sendo optámos por ficar em San Salvador de Jujuy em vez de regressar a Salta, por a passagem ser mais barata a partir daqui. Contudo, o autocarro apenas chegava às 2h30 da manhã, e fazia um frio de rachar. Felizmente encontrámos um café que ficava aberto toda a noite, e aí ficámos a falar, comer, escrever, ler, passar o tempo. Chegado o autocarro, aprendemos o significado da palavra "propina", em português, gorjeta, quando um rapaz depois de arrumar as nossas malas se virou para nós e começou a dizer "propina,propina"...banco para trás, saco-cama, daqui a pouco estamos a acordar nos Andes.

Curiosidades sobre o Brasil

- o voto não é um direito, é um dever. Quando  a pessoa não pode ir votar deve apresentar uma justificação, senão é multada;

- à semelhança da Argentina, o ensino superior público é gratuito;

- o desporto está por toda a parte, a qualquer hora do dia se vêem pessoas a correr;

- a ideia de que os preços no Brasil são mais baixos, é um mito! Pelo menos nas cidades onde estivemos, só a caipirinhas é que são mais baratas;

- à semelhança dos EUA, é um país de processos, há processos por tudo e por nada;

- as farmácias parecem mercearias, com anúncios de descontos e diferentes preços entre elas;

- o futebol não dá à mesma hora que a novela, para não haver discussão em casa. Isto é verdade, pois é a Globo que detém o monopólio quase todo de novelas e transmissões de jogos de futebol;

- apesar de algumas coisas no Rio de Janeiro serem mais caras que em Portugal, o salário mínimo é apenas de 250 eur;

- os casinos são proibidos no Brasil;

- a malta da nossa geração não houve bossa-nova no Brasil, isso é música de velho! O que está a dar aqui é o samba-rock;

- quanto ao álcool, a tolerância é zero, é proibido conduzir com álcool no sangue;

- o governo pouparia muito dinheiro se deixasse de desenhar passadeiras nas estradas, ninguém as respeita.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Cataratas do Iguaçu

21 e 22 de Agosto

Só não levei o Vitor ao colo desde o aeroporto até ao hostel porque não conseguia, estava mesmo doentinho. Depois de nos instalarmos, deixei o Vitor a dormir e fui comprar tudo para fazer uma canja. Nunca tinha feito nenhuma, mas mãos à obra, que quando é preciso, é preciso! Umas horinhas depois, lá consegui que o Vitor comesse alguma coisa sem vomitar, os medicamentos já deviam estar a fazer efeito!
No dia seguinte, ele acordou um bocadinho melhor, e combinámos que se não vomitasse a canja do almoço, à tarde iamos visitar as cascatas! É preciso explicar que estas cascatas têm dupla nacionalidade, uma vez que uma parte delas se encontra no Brasil e outra na Argentina. O lado que visitámos nesse dia foi o brasileiro, o outro previmos visitar no dia seguinte. Foi maravilhoso, é impossível explicar aqui a dimensão e a beleza das cascatas. O parque está muito bem preservado, com percursos desenhados para poder observar toda aquela água a cair. Até ficámos molhados! É incrível como nos sentimos tão pequenos ao lado de tamanha maravilha.  Depois de uma tarde rodeados de natureza, voltámos ao hostel, onde uma surpresa nada agradável nos esperava.
Depois do jantar, começo a sentir-me muito mal disposta, parecia que todos os sintomas do Vitor tinham passado para mim. Depois de pensarmos um pouco, lembrámo-nos que desde que tinhamos chegado, andávamos a beber água da torneira. Nunca nos sentimos tão estúpidos, toda a gente nos tinha avisado para não o fazermos... Mas quando chegámos tinhamos muita sede, e a funcionário do hostel disse-nos que podíamos beber. Enfim... No dia a seguir não me mexia, e acábamos por ter que passar a manhã na cama. Lá se foi a visita às cascatas argentinas, uma vez que já tinhamos um voo comprado para Salta. Mais para a tarde, lá arranjámos algumas forças e fomos de autocarro até Puerto Iguazu, na Argentina, onde iamos apanhar o nosso voo.
Fomos dormir cedo, e na madrugada do dia seguinte lá voámos mais um bocadinho para seguir as nossas aventuras.
Beijinhos beijinhos, e até à próxima!

"Da janela vê-se o Corcovado"


16 a 21 de Agosto
Depois de já alguns quilómetros na bagagem, eis que chegamos à última parada na nossa subida pela costa brasileira, e também a um dos destinos mais aguardados, Rio de Janeiro! A opinião das pessoas que conhecemos até então, era praticamente unânime no que tocava ao Rio, "é uma cidade linda que vão adorar, mas fiquem espertos!". É, parece que na opinião dos brasileiros o Rio é tão bonito quanto perigoso, portanto, estávamos tão curiosos como cautelosos. O hostel onde ficámos era barato, sujo, desorganizado, mas com um ambiente amigável e situado numa zona privilegiada da cidade, à direita a praia de Copacabana e à esquerda a de Ipanema, ambas a 3 minutos a pé. Foram 5 dias bastante activos, as manhãs passadas na praia, as tardes a explorar a cidade, e as noites dedicadas ao samba e às caipirinhas. Na primeira noite andámos 30 minutos pela praia de Copacabana até encontrarmos um bar aberto. Todas as pessoas estavam bem vestidas e arranjadas, dava ares até de ser uma festa elitista, onde nos sentimos um pouco intrusos pelas roupas demasiado descontraídas que tínhamos vestidas. Alguns segundos depois percebi que estávamos num bar de prostitutas, mas a Carolina pensava apenas que fazia parte da cultura local as mulheres arranjarem-se tanto. Claro que depois de 40 minutos de conversa com uma das meninas, a falar sobre tudo e mais alguma coisa, as dúvidas da Carolina dissiparam-se todas. Bela noite de boas vindas!
Não perdemos tempo, no dia seguinte fomos ao Cristo Redentor. Um mau planeamento de tempo fez com que chegássemos ao topo do Corcovado já ao anoitecer, e não pudémos disfrutar da vista diurna. Contudo, não deixava de ser lindo demais. Dá a sensação de estarmos no topo do mundo, ficámos a contemplar a vista até à hora de fechar, maravilhoso! De noite fomos a uma discoteca aconselhada pelo staff do hostel. Durante o tempo de espera na fila os empregados iam trazendo bandejas cheias de caipirinhas, provavelmente seria uma boa prática a adoptar pelo staff do Jamaica!Um facto curioso, para entrar tivemos de fornecer os nossos dados, que foram introduzidos num computador. Lá dentro tocava um grupo de samba, estava ao rubro!
Depois de algumas horas na cama, acordámos para disfrutar ainda da praia antes de nos dirigirmos para o centro histórico. Subimos no bondinho de Santa Teresa e depois caminhámos até à Lapa. Durante o caminho conhecemos um casal de brasileiros que nos levaram a provar uma receita especial de milho e com quem passeámos até à noite. Até nos convidaram para ir a uma discoteca perto de sua casa, mas devido à distância decidimos ficar noutra próximo do nosso hostel.
As Favelas
No nosso quarto dia comprámos uma tour para visitar a favela Rocinha, a maior da América Latina. Nesta manhã, o guia falou-nos sobre a história das favelas, como é que surgiram, assim como as suas regras e modo de vida. Apesar de nos ter ajudado a perceber a realidade que lá se vive, sentimos que não tinhamos estado no coração da favela, e que havia muito que tinha ficado por ver e saber.


Da parte da tarde subimos até ao morro dos Dois Irmãos, onde havia uma passagem para a favela Chácara do Céu, que o polícia que encontrámos uns metros atrás nos aconselhou a não atravessar. Contudo a curiosidade foi maior, e com muito cuidado e respeito, lá fomos perguntando aos moradores se era seguro andar por lá, ao que todos responderam que sim, fazendo-nos sentir bem-vindos ao seu "bairro". Todos falavam muito orgulhosamente do campo de futebol que tinha sido construído há pouco tempo. Durante a tour da manhã o guia clarificou-nos que para tirar fotos nas favelas convem conhecê-las bem, para sabermos onde podemos, e não podemos tirar. Visto que ali todos os moradores nos tinham dito que não havia problema em fotografar, quando saímos da Chácara do Céu, tirei uma foto ampla à favela vista de baixo. Longe de mim imaginar que a foto apanharia 4 rapazinhos armados. Assim que o flash acabou de disparar ouço-os a orderarem-me severamente que não saísse dali. Congelámos os dois, enquanto um deles desceu rapidamente as escadas e me tirou a máquina da mão. À medida que ia subindo as escadas disse que a máquina era minha, e que só ia apagar a foto. Passados uns dois minutos eles ainda não tinham conseguido apagar a foto e chamaram-me para ir lá acima apagar. Novamente veio a sensação de "vida a andar para trás". Enquanto a Carolina ficou cá em baixo, houve um senhor que lhe disse que os rapazes não me iam fazer nada, que apenas queriam apagar a foto. No entanto, quando lá chego acima vejo um deles a carregar a arma, enquanto outro me passa a máquina para a mão. Disseram-me que podia ficar calmo, que não se ia passar nada. Depois de apagar a foto à frente deles e de lhes mostrar que não tinha tirado mais nenhuma,  deixaram-me descer. É, tirar foto em favela a pessoas armadas é por a pata na poça, eles pensam que se tratam de jornalistas.
Depois de nos recompormos, descemos até uma praia bem bonita que ali havia, e aí ficámos durante uma hora deitados na areia. Mais calmos, e reconhecendo que o erro que originou o incidente anterior foi nosso, decidimos dirigir-nos à favela Vidigal, situada ali perto. Aqui sim, pudemos apreciar com mais calma o ambiente que se vive numa favela, embora não generalizando, pois nem todas são tão calmas quanto esta. Desde o ponto mais baixo até ao mais alto existe uma estrada principal, onde o meio de transporte mais frequente são umas motos que custam muito pouco, e que os residentes apanham diariamente para se deslocarem na favela. Os motoqueiros perguntaram se queríamos subir de mota, mas como sempre, optámos por subir caminhando. À medida que íamos subindo notávamos que as pessoas nos olhavam com um ar diferente, não de desdém, mas talvez surpreendidas por verem duas pessoas de fora a passearem por ali. Mais uma vez fomos perguntando aos moradores se não havia problemas em andar ali, e se era seguro continuar a subir, ao que todos nos responderam muito simpaticamente que sim. Tenho de admitir, as favelas não são bem aquilo que pensávamos, e que provavelmente mais pessoas pensam. Nas favelas também há supermercados grandes (e felizmente bem mais baratos do que os da zona onde estávamos, aproveitámos para comprar alguma comida), há lojas de internet, cafés, bares, e ao contrário do que se pensa, a maior parte das pessoas não está ligada ao negócio da droga. Quando finalmente chegámos ao topo, já ao anoitecer, estávamos parados a admirar a paisagem que os residentes do topo dispõem, à esquerda o morro dos Dois Irmãos e em frente a praia de Ipanema, quando um senhor perguntou se queríamos subir para o segundo andar da casa dele, onde a vista era bem mais ampla.
Subimos a escada de madeira que ele nos estendeu e cumprimentámo-lo. Estava de calções e espátula na mão, a trabalhar com cimento. Ele próprio tinha construído o andar de baixo e estava agora a ampliar a casa, fazendo um segundo andar. Devia ser o morador com a vista mais previligiada da favela, via-se realmente tudo, até os moços que estavam ligeiramente mais abaixo com metralhadoras, cuja função é vigiarem se vem alguma rusga da polícia. Depois de alguns minutos à conversa com o senhor Marcos, ficámos a saber que ele trabalhava num ginásio em Ipanema, que as casas ali estão isentas de impostos e que a polícia vem semanalmente receber o dinheiro para avisar quando vêm rusgas. Depois de nos despedirmos, começámos a descer, mas agora por outro caminho, que foi dar justamente ao lugar onde estavam os rapazes que vigiavam a favela. Era um bar, que tinha sido comprado por um estrangeiro. O rapaz do bar perguntou-nos se queríamos sentar-nos um pouco na esplanada, ao que respondemos, depois de hesitar um pouco, pensando nos miúdos que estavam a dois metros com metralhadoras, que sim. Já se nos tinha acabado o dinheiro, pelo que tivemos que regressar a pé para o hostel, cerca de uma hora e meia a reflectir sobre tudo o que se tinha passado neste dia. Depois de chegarmos e comermos, a Carolina foi descansar um pouco, para depois irmos sair. Entretanto, fiquei a falar com algumas pessoas que estavam no hostel, sobre o dia que tínhamos passado, e tudo mais. A conversa estendeu-se por toda a noite, e portanto, não fui acordar a Carolina, ficámos pelo hostel nessa noite.
Último dia no Rio. Para este dia, estava planeado ambos subirmos o morro Pão de Açúcar, eu ia fazer escalada e a Carolina ia de teleférico. Nessa tarde separámo-nos. Eu acabei por me perder do rapaz que vinha comigo fazer a escalada e acabei por fazer uma caminhada num parque lá perto. Cheguei ao hostel por volta das 19h00 e a Carolina ainda não tinha chegado. Quando finalmente chegou, digiriu-se a mim e deu-me um abraço, algo parecia ter-se passado. Depois de 4 dias, 4 noites, caminhando tranquilos nas ruas do Rio de Janeiro, sem qualquer indício de perigo, eis que no nosso quinto e último dia, a Carolina foi assaltada em plena praia de Copacabana, supostamente uma das zonas seguras da cidade, às 15h da tarde, por dois miúdos, que lhe fizeram dois cortes acima da sobrancelha, com um bocado de vidro. Levaram 50 reais. A imagem que se começava a criar de que afinal o Rio não era "assim tão perigoso como dizem" desvaneceu-se um bocado. De noite fomos sair para a Lapa, mas umas salsichas estragadas ingeridas ao almoço, acabaram por nos estragar a nossa última noite no Rio... voltámos para o hostel, onde passei o resto da noite com vómitos e etc. Esta foi uma das fortes, de manhã estava completamente fraco, quase incapaz de andar, pois tudo o que comia era imediadamente expulso pelo estômago, apenas ganhei coragem para me levantar porque tínhamos um vôo comprado. Chamámos um táxi para o aeroporto, e com algum custo, lá chegámos, com a Carolina a carregar ambas as malas e eu quase a rastejar. Não foi a despedida que idealizámos desta magnífica cidade, que nos deixou marcas e um enorme desejo de regresso, mas nem tudo é perfeito!




Fim de semana em São Paulo


14 e 15 de Agosto



Chegámos a S. Paulo de carro, com a Roberta e o Eduardo, onde nos aguardava um fim-de-semana recheado de descobertas e bom feeling! Logo à partida, percebemos que o trânsito é caótico, e que as regras todas que seguimos em Portugal, aqui são meros formalismos. Para abrir o apetite, visitámos o centro, onde conhecemos a praça Anchieta na qual S. Paulo foi fundada. Passada 1h de passeio, podíamos jurar que estávamos em Nova Iorque! Esta é a cidade mais rica do país, coberta de arranha-céus modernos, avenidas largas e onde existe gente de todas as etnias. Com a chegada da hora de almoço, dirigimo-nos ao bairro japonês onde comemos um prato maravilhoso de sushi. O Vitor tirou tanta comida que acabou por deixar imenso no prato!
Continuámos o nosso passeio à tarde, onde visitámos o parque da independência. Como o nome indica, foi lá proclamada a independência do Brasil, por D. Pedro. Foi bom fugir de todo o transito e poluição, enquanto desfrutávamos de um local verde e muito agradável. Em conversa com o Edu e a Rô acabámos por descobrir que S. Paulo é a cidade com mais tráfego de helicópteros do mundo, e que este é o meio de transporte que muitos empresários utilizam para chegar ao local de trabalho. Tendo em conta toda a extensão da cidade, os 10 milhões de habitantes e a fraca cobertura da rede de metro, é fácil compreender que o trânsito seja tão impossível.
Pela noite fomos ao bairro italiano, onde estava a decorrer uma grande festa religiosa! Toda a gente andava na rua ao som de música italiana, e descobrimos um restaurante maravilhoso para jantar, na companhia do pai da Roberta que se juntou a nós. Foi uma noite bastante animada!
Depois do merecido descanso, almoçámos com o Edu, a Roberta e a família, uma vez que era o dia do pai. Após as despedidas, que muito nos custaram, passeámos o resto da tarde pelo parque de Ibirapuera, que é gigantesco e alberga vários centros culturais. De noite, apanhámos o autocarro que nos levaria a uma das cidades que mais tinhamos curiosidade de visitar: O Rio!

O reencontro


Santos
9 a 13 de Agosto de 2011
Antes de chegar o dia 9 de Agosto, eu já tinha sonhado com ele vezes e vezes sem conta. Em Santos, iamos encontrar a Rô, o Edu e a Tânia, que viveram comigo em Portugal durante quase 2 anos! De modo que quando o autocarro chegou a Santos, depois de uma noite de viajem, eu tinha o coração a bater muito rápido com a expectativa, e o Vitor tinha os ouvidos já cheios das aventuras que vivemos quando eles ainda estavam em Lisboa.
Com a morada deles na mão, percorremos ainda alguns quilómetros a pé até chegarmos à porta do prédio (maldito taxista que nos disse que era perto!). A alegria não podia ter sido maior. Depois de muitos abraços e lágrimas, tomámos o pequeno-almoço que a Rô nos preparou, e até chegar a hora de almoçar houve tempo para uma banhoca e para começar a pôr a conversa em dia. Percebemos imediatamente que seria impossível ficar apenas três dias, como tinhamos planeado, e decidimos ficar mais tempo. Ao almoço pude voltar a comer a maravilhosa comida da Rô, com a qual me deliciei. Foi aí que chegou a Tânia e senti a alegria de mais um reencontro! Mais tarde fomos descansar um pouco, até a Rô voltar de uma audiência de trabalho. Nesse dia passeámos a pé por Santos, especialmente pela praia que já tinhamos podido ver da janela da casa do Edu e da Rô. A Rô foi a melhor guia turística de sempre, e com ela aprendemos que Santos é uma ilha, onde se encontra o maior porto da América do Sul. Foi lá também que nasceu o Surf no Brasil, e o desporto é uma constante em toda a cidade. Nessa noite, provámos uma das refeições que mais recordamos desta viagem: pastel e caldo de cana! O pastel é uma espécie de rectângulo de massa quente, recheado com o que se queira, e o caldo de cana é feito a partir das canas de açúcar espremidas... Divinal.




Os dias seguintes foram recheados de experiências únicas e inesquecíveis! Fomos a S. Vicente, mesmo ao lado de Santos, onde conhecemos o lugar exacto onde os portugueses desembarcaram para colonizar o Brasil. Depois de tantos anos a falar dos Descobrimentos, foi engraçado visitar estes lugares históricos. Em S. Vicente visitámos ainda o miradouro do arquitecto Oscar Niemeyer, que desenhou Brasília, e desfrutámos de uma vista maravilhosa, ainda com o gostinho do brigadeiro e bolo de côco que comemos pelo caminho, oferecidos pela mãe da Roberta. Mas as iguarias ainda não tinham acabado! De volta a Santos, fomos buscar o Edu e provámos Esfihas, umas pizzas em miniatura que nos deixaram de barriguinha cheia até ao dia seguinte. Acordámos cedo para visitar o centro histórico de Santos, onde andámos de bondinho e subimos mais de 400 degraus até ao topo de um morro onde se podia ver toda a cidade. Andámos também de catraia, uns barcos que os locais utilizam para se deslocar para o trabalho, foi bom poder experimentar a vida real das pessoas que vivem em Santos, e não apenas a vida turística. Pela noitinha, fomos assistir a um concerto de samba rock, onde pudemos conhecer mais música brasileira, e ouvir este estilo do qual tanta gente nos falava e que parece estar muito em voga pelo Brasil. Ficámos com pena de não conseguir encontrar nenhuma casa de bossa nova, mas pelo que percebemos, é um estilo musical de "velhos" e que não é fácil encontrar.
Até partirmos para São Paulo, onde estamos agora, houve ainda tempo para uma manhã na praia, onde as ondas e a água muito quente nos encantaram! Passámos também um fim de tarde a tocar guitarra e a cantar todos juntos, mostrando música portuguesa e brasileira uns aos outros. O Edu e a Roberta ajudaram-nos ainda a pesquisar em companhias brasileiras, vôos do Rio de Janeiro para a Foz do Iguazu, que de autocarro demoraria 22 horas. Concluímos que o preço do autocarro e do voo era o mesmo, pelo que optámos por comprar o voo. Numa tarde de coragem subimos de teleférico a um monte que descemos de parapente! Foi uma actividade muito bonita e nada radical, que nos permitiu apreciar a paisagem lindíssma de Santos e S. Vicente.  Experimentámos pão de queijo, açaí e pizza brasileira, que se juntam à lista dos petiscos deliciosos que os nossos amigos nos deram a provar, e passeámos à noite pelo centro histórico, onde escutámos mais música ao vivo e bebemos umas caipirinhas deliciosas. Felizmente, conseguimos convencer a Rô e o Edu a vir connosco passar o fim de semana a S. Paulo, e assim adiar a despedida por mais uns dias! Da Tânia tivemos que nos despedir ontem, com muita tristeza mas com a promessa de um reencontro breve em Portugal.
Até voltarmos para contar a nossa estadia em S. Paulo, deixamos um grande beijinho! Até já!

Florianópolis


6 a 8 de Agosto
Um encanto! Tínhamos planeado ficar apenas dois dias, mas assim que chegámos à Lagoa da Conceição, percebemos rapidamente que dois dias não seriam suficientes para disfrutar deste paraíso. A melhor época para vir a Florianópolis é mesmo no Verão, pois nesta altura as temperaturas ainda são um pouco baixas, e chove muito. Felizmente tivemos a sorte de sermos recebidos com um lindo dia de sol. A lagoa confere a este lugar uma beleza muito própria, podemos parar e ficar simplesmente a olhar. Caminhámos toda a tarde, pela lagoa, pelas dunas, onde havia pessoas a praticarem sandboarding, e donde se podia disfrutar de uma bela vista para a praia. Quando regressámos ao hostel, a expressão "o mundo é pequeno" veio-me à cabeça. Nesse mesmo hostel estão hospedados colegas meus do ISCTE! É verdade, escolheram Florianópolis para fazerem intercâmbio durante um semestre (a propósito, excelente escolha), e estão temporiariamente no hostel enquanto não encontram casa. Depois de colocarmos a conversa em dia, jantarmos, e convencermos um colombiano que não planeava sair nessa noite, a ajudar-nos a beber a nossa garrafa de cachaça e a sair connosco, dirigimo-nos para a festa de intercâmbio! Lá a Carolina encontrou também umas amigas das Caldas da Rainha. Foi uma noite de festa e muito divertimento! No dia seguinte tivemos de ir ao centro comprar os bilhetes para Santos, e ficámos por lá a passear. Nesta pequena viagem de autocarro deu para começar a perceber que a condução aqui é um pouco diferente, se tivesse de escolher um adjectivo seria, agressiva! Depois de uma tarde a passear pela cidade à procura de algo bonito, concluimos que o interessante de Florianópolis está mesmo na outra parte, e que esta foi quase uma tarde perdida.

No terceiro dia e último dia, o qual tínhamos pensado acordar cedinho para ir conhecer o sul da ewfwef, acordámos com trovoada e uma descarga monumental de água. Pouca sorte. Passámos o dia no hostel e num café a fazer tempo até à hora do autocarro para Santos. Mais uma grande viajem ao longo da costa brasileira nos aguarda, cá vamos nós outra vez!

Chegada ao Brasil


4 e 5 de Agosto

Tal como idealizámos, as grandes viagens seriam feitas, sempre que possível, pela noite, de modo a economizar a respectiva dormida. Esta foi a primeira grande viagem por terra, cerca de 12 horas de Punta del Este a Porto Alegre, com direito a duas refeições e tudo. Descemos o autocarro, com os olhos ainda meio fechados, e as pessoas voltaram a falar um dialecto familiar. Olá Brasil! Que saudades de ouvir falar a nossa língua!
Acabados de chegar ao terminal, há algumas tarefas a realizar, mais ou menos por esta ordem. Encontrar uma casa de banho (banheiro) para lavar os dentes e tudo o mais, uma casa de câmbio, uma loja de internet, para procurar e reservar o hostel mais barato da cidade, saber os horários e preços dos autocarros (ônibus) para Florianópolis, e finalmente, ir ao posto de turismo buscar um mapa da cidade. Rimo-nos muito quando perguntámos a uma rapariga (moça) o que havia de interessante para se visitar na cidade, e ela nos respondeu  “tem o shopping”.

Tudo tratado, apanhámos o autocarro para o hostel, onde nos aguardava um staff bastante hospitaleiro, e um pequeno-almoço (café da manhã) delicioso.
Varremos as ruas de Porto Alegre numa tarde. Não é uma cidade muito diferente das europeias, excepto a elevada densidade populacional, é incrível observar tanto movimento. No entanto, das 19h para as 20h parece que se dá algum tipo de fenómeno, pois as ruas ficam desertas, deve ser para ver a novela. Estávamos hospedados a duas ruas da zona dos bares, à noite fomos beber um copo. À semelhança da Argentina, a cerveja continua a ser suminho, vamos ter mesmo de nos começar a dedicar às caipirinhas. Um aspecto curioso é que se pagava para entrar em quase todos os bares, com os preços discriminados, uma parte para a banda e outra para a casa. Acabámos por entrar num bar de jazz, onde estava a tocar uma banda cujos membros não deviam ultrapassar os 20 anos, mas que tocavam muito bem!


Hoje dormimos até tarde e passeámos muito calmamente pela zona verde da cidade. Para despedida, observámos o sol a por-se no lago Guaíba. Vamos agora apanhar um táxi e seguir para Florianópolis!